domingo, 17 de julho de 2016

Sempre azedos

São duas vias.
Duas vidas.
Alguns verbetes.
Muitos significados.

São dois copos de água
ardente e sem sal
Sem gelo, sem limão
apenas azedos.

Olho da janela o que Deus diz
É eterno tudo aquilo que fiz
Mas preferi o revés das marés.
As inúmeras heresias.

Escolhas. Estão sempre na sacola.
Vários copos, várias águas,
várias luas,
sempre 
azedos

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Cidade rafaélica

A cidade cala as almas
seus muros de concreto
seus rádios ligados
a alma em perfeito desafeto

os becos escuros
as ruas sem saída
os ambulantes sem vida

na cidade tudonada é permitido

O prefeito, o delegado
mendigo morrendo de frio
em plena madrugada

Cidade cruel, desumana 
será que concede aos seus moradores
segurança?

A poesia escapa dos cachimbos
acessos no meio da escuridão
na praça da Luz

Luz para todos é ilusão
o cachimbo que acende aqui
liga a alma na escuridão

Quadros, lagoas, cinemas
lançamento, livros, novelas
Imagina se a cidade fosse
tudo isso que se fala dela?

sábado, 9 de julho de 2016

Frioquentequentefrio

dentro é frio
lá fora é quente
dentro é quente
lá fora é frio
frioquentefrioquente
quentefrioquentefrio
cuidado ao por o casaco
cuidado ao tirá-lo
você pode esfriar ou esquentar
seu coração

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Diário de uma insônia

Noite 
Insônia 
Vira
Remexe 
Exemer
Mexemer
Acorda
Já é dia? Não
Já é noite? Não 
Sonha
Acorda
Sem sol 
Noite 
Insônia 
Não acaba 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Encaixe

Grito, saio de mim
Nos seus cachos eu me encaixo

Todos estão condicionados,
É tudo quadrado, tudo triangular
Tudo angular
Menos você

Silencio, volto a mim
É em sua alma que me embaraço

Querem ser lisos, duas dimensões
Padronizados
Menos você

Grito, saio, silencio entro
É em tudo que é você

Que me adentro.

sábado, 2 de julho de 2016

Augusto, os anjos do eu

  Sobrevivo de pequenos instantes e de coisas pequenas, sobrevivo porque viver é difícil. Quando Drummond escutou o conselho para ser gauche na vida, não tinha noção de como as coisas são, ou, se tinha algum traço impressionista, ele o ignorou. 
  Pior que sobreviver, é (ou são) as perguntas tão paradoxas que ocorrem em nós. Calma, respirem e pensem, porque escrevo somente sobre mim, o eu, sobre essas coisas? Porque conhecer a nossa individualidade podemos reconhecer nós, por isso Augusto dos Anjos publicou apenas um livro e o intitulou "EU", não porque era arrogante, mas pelo simples fato de todos os versos, sentimentos íntimos e desejos intrínsecos de vida e morte eram dele. Augusto sobrevivia, e eu também. Antes falar de todos esses meus conflitos, que criar um personagem apenas para servir a minha vontade, isso é demoníaco, no mínimo fascista, maquiavélico.
  Mas o que não é? O infinito é a peça para descobrirmos que todos somos microcosmos. Ser é pior ainda do que reverberar. Reverberar é marcar e caso não marcamos, não somos seres, somos algo que chegou, deu saudade, mas foi. O foi é questão de dor, e dor é morrer pouco a pouco com a distância, desgasta corações, explode estrelas, faz com que notas musicais morram, eu disse, é um puro sentimento de poder, conclui-se maquiavélico. 
  Queria as vezes que todas essas coisas, todos os verbos e enunciações morressem no limite do limite do limite, onde os olhos não alcançam, porque eu teria que de novo brincar de sobreviver.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Ônibusamante

Entrei, sentei, estendi os pés
liguei a música nos fones de ouvido
as luzes ainda estavam acesas 
as pessoas entravam, 
ao meu lado tinha vazio.

eis que se passaram alguns minutos
uma linda garota meio perdida
encontrou o número da poltrona
era ao meu lado

Assustei-me um pouco pois começamos a conversar
o ônibus partiu, e a fala permaneceu
as luzes se apagaram, porque era o último do dia
os olhos castanhos meus, que se encontravam com os olhos                                                                                {esverdeados dela
deram lugar ao escuro, confiávamos no som das palavras

a conversa chamou as mãos que se tocaram
a cabeça inclinou e se apoiou, as mão clamaram o pescoço
os lábios se encontraram timidamente.


Foi assim, um instante, de transeunte, para amante passageiro
no final, lá, após umas três horas, os lábios se encontraram                                                                                      {(novamente)

E o coração diz, agora não, melhor não, conheci você hoje e agora
concordei, afirmando, a vida é feita de instantes bem vividos.
O ônibus chegou ao seu destino final.