sábado, 6 de maio de 2017

girassol

Apaixonei-me pelos seus girassóis 
e encarno em outro corpo meus desejos
e eu não sou seu sol
embora queria ter sido

a dor de ver você indo embora pouco a pouco
é pouco para mim, que guardo no retrato
de um instante congelado, momentos de nossa sincronia

o incenso dá voz para o corpo, só não há corpo
nem incenso, apenas corpo e voz
do meu e do seu, que torna e entorna numa taça em nós

ata e desata, maltrata a alma, que espera 
e o relógio conta as horas, e ora, nem chega
a nenhuma ideia de amor

amar e amar, sem desandar a massa de nosso coração
é complicado e diversificado tanto
que só de ver versificando o mundo 
fico na dúvida se quero ser amado

sou apaixonado pelo seus girassóis
risos, fonéticas, enfim, todas as suas idiossincrasias
só que no fim, vai ser aquela coisa
cheguei, fiquei e parti

perdi seus girassóis

o furacão e a borboleta

Não sei quantas vidas me sobram 
e quanta metafísica há em mim
se é que existo ainda, 
se não sou um pedaço de vento

é clichê, clichê, e clichê
falar de tudo e de nada, de poesia, de ritmo
o coração bate e dessaruma a alma
floresce e cresce e por fim sempre morre
e morre
morre

ficamos a ver os navios, porém, o oceano secou
e a vida transformou em luz e a luz em estrelas
e as estrelas em galáxias transcendentes que fazem brotar
dimensões para uma subrealidade

não quero estar lá, 
e estou
não quero ser
e estou sendo
a realidade está de mãos dadas
e eu, de metáforas, e linhas
paralelas e planas não encontram-se no espaço
e desencontram-se no horizonte

é tudo um caos dentro de mim
e não reside paz, 
só que é de caos feita a vida
e de ordem é dada a morte

o mundo é borboleta
e eu o furacão
que não sabe para onde ir


 

 

domingo, 2 de abril de 2017

Eu queria que fosse

Eu queria que minha amnésia fosse de você
amor destemperado e efêmero

Eu queria que minha fome fosse de você
acalanto sem canto, amor desatencioso

Eu queria que eu fosse somente seu
carinho de muitos, e pouco de eu 

Eu queria que fosse a completude
seres incompletos, amor maldito

Eu queria, eu queria tanto querer você
amor, ou posso chamar de razão?

Eu queria que você fosse minha filosofia
amor desesperado e com fim.

domingo, 12 de março de 2017

decoro

Decoro palavras
sem decoro
e em coro, faço do silêncio
dos esquecidos
um grito!

Grito que emerge,
de um buraco profundo sem verbo
com vilania descarada
medo, antipatia, desmerecimento

o clima é de chuva
e a máscara é de ferro
não cai, mas machuca
talvez enferruje se o coração
for de lata, porque se for de carne
apodrece e não dilata

onde está o decoro poeta?
está no olho da transição intransponível da palavra surda
seja lá o que isso signifique
decoro é para quem tem ordem para a poesia
agora para quem vive dela
poesia é vida!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

lembro da luz entrando em diagonal no quarto escuro
éramos nós, bem desatados, que quiçá nem vão se atar
aproxima-se, mas não dá sintaxe
aconchega-se, mas não faz história
são momentos efêmeros,
pensando bem, qual momento já foi eterno?

lembro do cafuné 
e quando o abraço se completou
foram segundos de eternidade, aqui, 
quiçá a eternidade do momento
é tudo bem relapso no meio do colapso
uma gota no meio do oceano

é tudo caos
e tu é minha paz. 


Dedicado à Calanit

Poema sem sentido nº1

Parece que todos os poemas são a mesma coisa
o verso melancólico de um amor perdido
ou a denúncia de um ato
e na verdade, todos os poemas são sobre a mesma coisa

tem poemas sobre poemas
e poemas sobre pássaros
tem até mesmo poemas sobre mercados
e pessoas que vagam aleatoriamente por aí

tem poemas que nem são poemas
tem verso que nem versa direito, não dialoga, nem muito menos
é feito de poeta

tem estrofe que é abraço e verbo que é beijo
as vezes tem redondilha que evoca uma briga
que olha! nem queira estar perto quando acontecer 

algumas linhas são feitas de sobrelinhas
que entrelinham e formam anéis, que não são de saturno
mas ficam nos dedos, para representar poder

tem palavra que nem é palavra
e esse poema, é poema?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAA
AAAAAAA
AA
A
A
A
A
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAA
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaa
aaa
a
a
a
a
pode ser desespero, pode ser "a"
pode ser qualquer forma de grito
de silêncio, de desamor, de choro
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
eu sempre grito!