sábado, 26 de agosto de 2017

face a face

É noite de um dia que perdi as contas
 pensei em números, cafés, cantigas 
e só vinha na minha mente, desespero confusão, intrigas e mal ditas palavras
 café, papel em branco, tela em branco um azul aqui, outro ali, 
um desaponto de tempo aqui outro ali, tudo indo, nada vindo
 cada dia mais face, mas sem ver a face do outro
 água gelada rotulada: Fonte de Algum Lugar
 será de lá, a fonte da vida? poeira, espírito, sopro, de
caimento dimensional de hipopótamos machadianos temporais
 cortei a vida, e versifico os momentos de nada nada é nada,
 tudo é tudo e por assim, a vida se improvisa se visa o nosso bem,
 eu não sei mas como dizia minha 
vô cenoura faz bem pra vista!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

numa fogueira de são joão

é, é, o mundo está encarcerado em desamor
enquanto afogo-me em incertezas
o beijo é perdido por entre chamas, labaredas
das festas de São João que não ocorrem
em noites amenas, mas frias
para que o coração aproxime-se do outro

é, é, aparece tanto desamor por aí
que nem sei mais o que é o amor, 
agora, no instante da partida,
no cume do vento, significa ir e não voltar

tropecei por sobre umas palavras
eram sorrisos, abraços, braços, poesia
mas não era para mim.
Acredito que o amor seja para todos
menos para o poeta.

domingo, 11 de junho de 2017

o dia em que o poeta parou de versar

O poeta decidiu parar de versar 
Foi num dia qualquer 
Num dia cinza de quaisquer 
Parecia brincar com as flores 
Mas, sem o bem, só o mal me quer 

 Ele cansou. Cansou de versar 
Sua alma estava sem combustível 
Não sabia mais como agir 
Ele tudo dava e quase nada recebia 
E se recebesse 
Era sempre o vazio 

Não que o poeta esperasse algo 
É que ele esperava ansiosamente 
Por alguém que transversasse o 
Que ele versava: "que amasse amor que tinha" 
Por isso decidiu parar de versar 
Pois versar é conversar é estar
E quando já não há motivos para esperançar, não tem porque
Legendar sentimentos em 
Estrofes 

O verso finda no ponto 
E o poeta se afunda no poço 
Daquilo que poderia ser algo 
E não foi.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

sem nome, mas no jardim


Eu preciso de um amor 
Um amor que me ame 
E ame o amor que eu tenho 

Não preciso de um amor de mensagens 
de ligações 
De formidáveis presentes 
Preciso de um amor presente 
Pode não ser todos os dias 
Nem todas as horas 
Mas um amor da qual 
O pensamento fique 
E quando há encontro 
Os beijos se traduzem 

Não preciso de um amor 
que venha de roma, 
Que brote do nada, 
Nem daqueles romances mirabolantes
Preciso de um amor que goste de ficar
Que brote poesia 
Que saia do chão 
E viva comigo todos os universos 
E escreva versos de vento 
Que faz eu perder o centro

Preciso, porque falta em mim 
Aquilo que eu transbordo 
Ausência.
Posso ser feliz comigo,
E sou, posso sorrir por aí sozinho 
E sorrio 
Só que sem a quem ter motivo
Do riso e da felicidade 
Sinto perdido em mim 

Preciso de um amor saudoso de mim mesmo 
Porque assim, posso ser completo em nós
Preciso ser dois 
Pois minha alma suplica
Por versos únicos.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Purê

Ela não descascou as batatas
mas colocou na panela
encheu até a metade de água,
esqueceu do sal
acendeu o fogo e esperou.

Ele, ligou a TV num dia de feriado
sentou no seu colchonete
que imitava um sofá e perdeu-se por uns minutos,
lembrou, foi lavar a louça.

Ela olhou atentamente a janela
as nuvens tinham movido-se pouco
calmamente viu a silhueta
calmamente lavando a louça
e calmamente houve um breve sorriso

Ele terminou a louça,
E chegou perto dela 
Trocaram olhares 
A panela apitou 
Estavam prontas as batatas 

Amassaram as batatas 
Colocaram manteiga 
Ovos, sal, fogo 
Ela mexeu a panela 
Ele observava 
Purê, pronto. 

Ela sorriu para ele 
Ele sorriu para ela 
Se abraçaram ali mesmo 
Era o instante da fuga 
E os dois brindaram 
O momento 
Na eternidade 
De um beijo 

O purê estava delicioso


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Poematráfico





sou traficante de poesia
e usuário de verso
cada linha que escrevo
é um novo universo

é respiração ação
resistência, diante de um mundo
que dilui em palavras
ódio, desamor, desistência

a cada tragada da pedra do caminho
tenho convulsões líricas machadianas
olho oblíquo, caneta irônica
bilhetes mnemônicos de Garcia

carne podre, e não é de demônios que falo
sim, de palavras pútridas dos Anjos
transcende a glória da luta, versos de Buarque
e procuramos verbete a verbete
significados no Holanda

injeto em mim verbo, meu olho fica vermelho de amor
proibido, vendido, lolita, Basílio,
Vicente, tanto Gogh como o Gil
metamorfoseio incongruências dentro de mim

sou caleidoscópio e maldição
honra, estupidez
acredito na poesia,
pois ela transforma
em ricas palavras
a miséria

é esperança, e remédio
é dor, felicidade, é espanto
poesia é versificar a vida
sem significação
é simplicidade de Quintana
dançando no meio da praça
com seu Sapato Florido

cheirei formas de linguagem
e corri com
vvvvvvvvvv
vvvvvvvvve
vvvvvvvvel
vvvvvvvelo
vvvvvveloc
vvvvveloci
vvvvelocid
vvvelocida
vvelocidad
velocidade
até não me alcançar mais

trafico, uso, retrafico, reuso
o verso, a polissemia,
a tuberculose, a doença
a taquicardia
uso a poesia como substância ilegal
para sair desse mundo de distopia


domingo, 14 de maio de 2017

antes de observar que o tempo diluiu escrevi estes versos


http://www.democrart.com.br/aboutart/wp-content/uploads/2015/03/Democrart_Salvador_Dali_Obra6.jpg


acordei, não abri os olhos.
passou uns minutos, abri os olhos.
olhos fecharam, abri o corpo.
corpo fechou, aí levantei.

lavei o rosto com os olhos fechados, o corpo aberto
e a mente toda inerte
fui a cozinha preparar café.

fervi alma, coei corações
e sorvi desgosto.

aí, já estava de olhos abertos, de corpo fechado
e a mente fluida.

percebi que não tinha aberto as janelas 
era escuro, espelho dos meus inversos
escancarei as janelas e entrou luz
e olhei o horizonte todo líquido,
colorido, e cheirando a merda.

fechei a janela, parei minha mente,
encostei o corpo, sorri. 

existia uma flor na beirada da pia
e ela não estava lá, existia
e agora, no plano da consciência não existe

só me restava sentar. sentei.
lembrei, ou tentei
puxar das linhas da ausência
o amor.

por fim, percebi, o tempo diluir
tudo o que é sólido
e perdi, o que mais me mantinha vivo
amar.